Onde você está na crise política?

O cenário de crise política que temos atravessado no último ano mostrou o poder dos acordos políticos e dos partidos da direita brasileira que sabem explorar as brechas e oportunidades que criam. De um ano para cá tivemos a bizarra votação de pautas como a redução da maioridade penal, assistimos ao processo de impeachment de uma presidente eleita e a ascensão de seu vice, e um processo de cassação, do agora ex-presidente da câmara dos deputados, que já é o mais longo da história da Casa, entre outras notícias que acabam virando assunto na mesa de bar, e deveriam ser mais do que apenas um tópico de conversação.

Frente a este momento caótico da política brasileira, duas posturas são possíveis. Não me refiro a dualidade entre direita e esquerda, conceitos que definem o espectro político desde a revolução francesa em 1789, mas sim das atitudes que podem ser tomadas na crise: ir em frente ou abrir mão. Por um lado, temos visto pessoas se revoltarem, mesmo que nas redes sociais – que a grande mídia insiste em chamar de ativismo de sofá, contra as atrocidades cometidas pelo governo. As mídias independentes fazem um ótimo trabalho ao nos informar o que os grandes jornais tentam esconder ou maquiar. Com uma narrativa mais plural podemos perceber a realidade e a dimensão do problema e nos posicionar com clareza sobre os assuntos para mobilizar politicamente em torno do apoio ou rejeição ao impeachment, por exemplo.

No lado oposto, pessoas que, mesmo informadas (ou até porque são informadas) se encontram exaustas e desiludidas da política e seus processos a tal ponto que optaram por se desligar da questão. É comum ouvir nas ruas velhos chavões como “política é lugar de corruptos” e que “nenhum partido político presta” como claras demonstrações da descrença na política em geral e do desejo de se afastar dela. Muitas pessoas não acreditam que um novo partido político pode ajudar a resolver os problemas instalados, que seria apenas mais um para ser sustentado pelo Estado, que a renovação na política é apenas uma promessa na nossa frágil democracia de apenas 27 anos.

É difícil combater esta ideia já tão consolidada no imaginário popular, e a desconfiança nos políticos e nos partidos é embasada por suas próprias ações como quando, por exemplo, votam aumentos consecutivos para sua classe. Até mesmo Torquato Jardim afirmou, em gravação vazada em junho, que os partidos políticos se tornaram balcões de negócios. Esta declaração torna-se ainda mais grave por ser ele o Ministério (interino) da Transparência, Fiscalização e Controle, órgão que substituiu a Controladoria Geral da União no governo Temer.

Não há vantagens profundas em ser apolítico em uma hora como esta. Se afastar da questão pode trazer algum alívio momentâneo de não ter que se preocupar com nada e viver uma vida mais tranquila, mas esta postura “isenta” não vai fazer a crise política passar. Na verdade, pode até trazer consequências mais graves em um futuro não tão breve, já que os únicos que se beneficiam desse pessimismo são os políticos de carreira, os que já ocupam posições de poder há décadas e não pretendem abandoná-las tão cedo. Não é à toa que o slogan de incentivo popular do governo Temer é “não pense em crise, trabalhe”. Reflexão e pensamento crítico sobre a atual situação são nocivas ao modelo de governo proposto e são o primeiro passo para a mobilização política e enfraquecimento das bases da velha política.

Não devemos, enquanto cidadãos, excluir nossa participação na política antes mesmo de entrar no jogo, que deve ser jogado de dentro. Os fundadores do primeiro Partido Pirata perceberam isso em 2006 na Suécia, quando a ideia de criar um novo partido político pareceu a alternativa mais viável para entrar no debate e fazer mudanças significativas na legislação de direito autoral no país. Hoje as pautas do partido vão muito além do copyright e atentam para direitos civis como o combate à discriminação, ao autoritarismo, a liberdade de acesso a informação e a privacidade.

As crises são também oportunidades de crescimento, mas para isso deve haver uma ruptura com o modelo de política estabelecido. O partido Pirata se apresenta como uma alternativa para fazê-lo e propõe esta ruptura ao pensar a política sob uma ótica horizontalizada, de democracia líquida e plena. Para isso é preciso fortalecer a ideia e assim repetir o que acontece na Europa, onde o Partido Pirata, mesmo com poucos anos de existência, tem sucedido em colocar representantes nos governos da Suécia, Alemanha e no parlamento da União Europeia.

Há um provérbio chinês que diz “quando sopram os ventos da mudança, alguns constroem muros, outros constroem moinhos.” Nos ajude a construir velas e naveguemos na política.

Sobre Daniel Teixeira

Mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília, pesquisa o direito autoral, suas implicações econômicas e relações sociais e políticas
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